Nessa
terceira fase, ocorreu durante o ano de 2007. A iniciativa é construir junto com os jovens,
videoclipes. Os videoclipes são centrados em percepções de suas histórias e em
composições por eles criadas. Se tem o desejo de registrar uma vivência
individual nas composições das músicas, para nos vídeos mostrar o coletivo que
o rodeia. Ao passar pelo processo de construção coletivo, o jovem vive, conta a
própria vida, e a vida alheia, construindo outras formas de percepções para o
agir, pensar e comunicar a realidade. A
partir do uso do vídeo, foi possível realizar uma releitura das composições das
músicas por eles criadas, gerando outra dimensão da maneira de relacionamento
com o mundo, através das imagens. Procuramos buscar outras formas de
narrativas, onde as vivencias e histórias contadas não passariam
necessariamente por uma única forma de mediação, no caso o vídeo. Mas, a partir
da investigação que explorassem a música, a fotografia, a escrita, a vida em movimento
daqueles que a vivem de sua forma espontânea.
Musica – ‘Sei que serei esquecido’
Composição - Ulisses
Ulisses
(nome fictício) em uma atividade, falou do interesse em participar de um
‘quadro’ de um programa de televisão, e assim comunicar e divulgar as
composições e canções criadas. A idéia é fazer um depoimento e enviar pelo via correio,
para o programa de televisão do Luciano Huck. Após esse primeiro interesse, conversamos
e discutimos sobre possíveis formas de construirmos o depoimento através de imagens,
as quais poderiá-mos enviar para o programa. Como já havíamos realizados varias
atividades em que as imagens nos acompanhavam, optamos em criar um videoclipe
para acompanhar o depoimento. Assistimos e discutimos a música ‘Sei que serei
esquecido’, de sua autoria, debatemos a composição e, a partir de situações as
quais a letra da musica revela, como transformarmos em imagens. Após a
conversa sobre possíveis formas de construção do vídeo, marcamos de ir a comunidade
realizar as filmagens.
Do
projeto ‘Refazendo Vínculos’ até a comunidade de Heliópolis, tem em média, uns
15 minutos. Durante o percurso, fomos gravando alguns locais por onde Ulisses
passa diariamente, na divisa entre a comunidade e o bairro do Ipiranga, local
com uma variedade de lojas, agencias bancárias e barracas de camelos.
Ao
chegar à comunidade, fomos para casa da mãe de Ulisses, que fica há duas
quadras de sua casa. A mãe não estava, então, fomos para um prédio vizinho, pois
imaginava situações em que do alto, avistava-se a comunidade. Porém, só tinha uma
condição, para gravar do alto da comunidade, teríamos que pedir autorização
para o movimento do tráfico de drogas, pois, embaixo do prédio, funcionava um ponto
de venda de drogas. Sem muitas escolhas, fomos à procura do responsável pelo
tráfico, para solicitar a autorização e realizar as filmagens. Caminhando pelos
seus becos e vielas, crianças brincam das mais diferentes brincadeiras, desde bolinha
de gude, pega-pega, dominó e futebol.
Chegando ao local onde possivelmente se encontrara
o gerente, havia uma mistura de moradores e transeuntes que circulam pelo
local, entre esses, cinco homens fortemente armados, dois deles portando
pistola nas mãos, e os outros com as armas na cintura. Ulisses pergunta pelo
gerente, um rapaz alto carregando duas armas, uma em cada mão, responde em um
tom ‘silencioso’ que “ele não se encontra”. Um deles indicara para irmos a um
bar ali próximo, que talvez estivesse lá; fomos até o bar indicado e não
encontramos. Encontramos o sub-gerente
do trafico, que estava ‘cobrindo’ o gerente naquela tarde. Aparentemente um
rapaz tranqüilo, calmo, trajava calça Jens desfiada na barra, tênis da Nike e
boné na cabeça, pelo sotaque da fala parecia ser nordestino. Ulisses fala com o ‘sub-gerente’ a respeito
das filmagens. No momento em que fala, o rapaz me olha com certa desconfiança. Eu
também desconfiado do que poderia vir a acontecer, se pensasse algo oposto a
nossas intuições naquele momento, qual seria a reação dele? E a minha? Esperava
uma pausa de Ulisses para falar algo, qualquer coisa, uma fala, ou um gesto que
transmitisse a paz e a euforia a qual me encontrava naquele momento, por mais
impaciente que estava, tentava me comunicar de alguma forma. Não tive chance. Ele
direcionou um olhar com uma profundidade, que pressentiu a atividade nervosa na
qual me encontrava, pois, ao olhar nos olhos dele e me rever, senti que a
formação contida na luz de minha retina, brilhava com uma densidade, semelhante
ao pulsar de minhas veias, a qual pulsava na velocidade avermelhada daquele
entardecer. Sua percepção visual codificou em etapas, enquanto ouvia Ulisses
falando e gesticulando com as mãos se podíamos realizar as gravações, então, dentro
daquele acumulo de sensações, levanta a mão lentamente em minha direção e me
cumprimenta, então fala:
-
Sem problemas, só tomar cuidado para não filmar os meninos no movimento.
Na
entrada do prédio, um dos traficantes vem em minha direção apontando uma arma,
e pergunta:
-
Você não é polícia não né?
Na
hora que ia responder, Ulisses fala:
-
Que polícia que. Estamos gravando um vídeo, já falei com o ‘sub-gerente’.
O
rapaz se afasta, abaixa a arma e volta para o movimento.
Subimos
então para o décimo andar, onde se avista o contraste suburbano da cidade. No
horizonte em direção ao por do sol, as montanhas observam a cidade aglomerada entre
seus carros, prédios e barracos. Logo avisto um olheiro, sentado em um ponto
estratégico, onde se tem a visão das principais entradas da favela. Em uma das
mãos ´pitava` um cigarro, e na outra, segurava um rádio ‘oquetoque’, o qual se
comunicava com outros parceiros em terra. Estava desesperado, passando o radio para
seus companheiros. Pelo desespero que se encontrava, achamos que estava
acontecendo algo de estranho, chegamos até ele, e Ulisses pergunta o que esta
acontecendo. Ele fala:
-
Você pode ficar um pouco aqui, pra eu ir lá embaixo comprar um iogurte pra
minha filhinha?
Ulisses
olha para ele, e fala:
-
Não, não, estamos com pressa, Só viemos fazer umas imagens.
Nesse
tempo o carro da ‘venda’ se vai, o olheiro um pouco agitado, se acalma. Gravamos
então cenas do contraste suburbano e cenas que Ulisses tinha em mente cantando
e observando a comunidade. Após as gravações, quando estávamos para ir embora,
o olheiro conta um caso, o qual narra com muita intensidade. Conta que uns dias
atrás, os ‘caras’ do movimento do trafico, o empurraram lá de cima, por sorte
agarrou em uma das madeiras do telhado para não cair. Seus olhos arregalados
transmitiam a sensação do medo que sentira, então se afasta após a fala e volta
para o posto de trabalho. Depois Ulisses fala que tinha cometido uma ‘mancada’ com
o movimento, consumiu drogas da ‘biqueira’ e não pagou.
Descendo
o prédio o elevador para no oitavo andar. Uma jovem aparentando ter uns quinze
anos entra no elevador, leva no colo uma criança de uns quatro anos de idade.
Os olhos da criança brilham. A criança e a mãe com seu largo rosto oval eram
iluminados pela luz do elevador que refletia diretamente em seus olhos, o qual
brilhava semelhante aos olhos da criança, com muita ternura e carinho. Com uma
inquietação, pergunto para a criança o seu nome, para minha surpresa não fala
nada, fica gesticulando com a mão como se fosse uma arma e com a boca pá pá
pá...
Então
descemos e fomos para o Hospital Heliópolis. O Hospital situa-se em um dos
pontos centrais da favela, precisamente junto das últimas árvores de eucalipto
resistente da mata que existia há quarenta anos atrás. Para Ulisses, era um
lugar especial, pois tinha realizado ali, um de seus primeiros shows. Queria fazer
o depoimento naquele espaço.
Chegando nas árvores, Ulisses senta em uma pedra e conta um pouco de sua história de vida, momentos marcantes da infância, de seu envolvimento com a música:
“Tudo começa quando eu tinha cinco anos, quando começou minha história, uma história um pouco triste, um pouco alegre. Eu conhecia vários cantores, ouvia vários tipos de músicas e gostava mais de música romântica, nunca deixei de cantar e também de ouvir. Hoje eu tenho 17 anos, ao passar esse tempo, tenho passado por várias barreiras, a oportunidade faltou, minha família não tem condições de me ajudar. Eu queria uma oportunidade para poder tá mostrando meu trabalho. Essas imagens que eu tô fazendo, é para que possa entender um pouco daqui, da comunidade que eu moro, favela Heliópolis, uma favela humilde, pobre, com gente trabalhadora. Tem gente do mal, mas a maioria é do bem. Tem várias crianças que hoje são alegres e traz pra mim uma felicidade imensa. Tem várias rapaziadas que gosta da música que eu canto. Fico triste por um lado, que não consigo seguir minha carreira. Não tenho a oportunidade de tá mostrando pra uma pessoa que possa ordenar o que eu posso fazer prá ta conseguindo. Quem sabe assim uma gravadora pra mim tá lançando um CD, pra mim continuar minha vida de cantor. O que eu mais queria é tá mostrando um pouco da minha música. E quem sabe assim um pouco do Brasil poderia me conhecer, e, meu trabalho seria um pouco divulgado. Que ainda isso nunca aconteceu. Tem noite que não consigo nem dormir só de pensar que a cada dia eu tenho que lutar pelo que quero. Tem noites que choro, minha mãe fala: ‘continua filho, não para não’. Meu pai, também dá maior apoio. Minha vida precisa um pouco dessa ajuda, para eu poder mostrar para o Brasil que eu tenho capacidade. Tem muita gente que duvida do que eu falo. Quando falo que canto as pessoas riem da minha cara. Tem gente que critica meu trabalho. Tem gente que não sabe o que eu passo. Não sabe o que eu to fazendo, não sabe pelo que já passei pra tá cantando, essa música “Sei que serei esquecido”. É uma música minha, o som emprestei de um amigo. Queria agradecer muito a Deus, por me iluminar todos os meus caminhos, e por eu nunca desistir do meu sonho, porque meu sonho, desde cinco anos de idade, é esse, de cantar e nunca mais parar.”
Ulisses, após alguns dias desse depoimento, foi preso. Segundo ele, após sair da FEBEM. Contou que estava ele mais um amigo indo para uma festa, quando passam por um ponto de ônibus, o amigo rouba o celular de uma senhora e sai correndo em disparada. Ulisses continua andando normalmente, enquanto seu amigo dobra a esquina. A senhora aciona a polícia, tendo a vítima o reconhecendo. A vítima conta que ele estava com o acusado, então é preso por três meses. No segundo dia em liberdade, vai ao projeto e fala como foi esses meses preso:
“Foi um lado de sofrimento e outro de experiência. Aprendi muitas coisas, abriu um pouco mais a minha mente. Agora eu tô sossegado, quero continuar com a música que é meu sonho. A maior dificuldade foi como sobreviver com a opressão, nóis tava sofrendo muito, apanhando por nada; era um sofrimento constante. Mas tinha que por a cabeça no lugar, pra poder tá ajudando o próximo que chegasse. O lado bom é quando chegava visita, ou quando a gente tava num curso distraindo a mente, fazendo alguma coisa que era bom pra nóis mesmo. Fora isso não tem nada de bom lá, não. Quando eu saí, foi da hora, as pessoas que me adoram chegou em mim, me abraçaram, falou pra eu não voltar mais pra essa vida. Hoje sinto maior alegria no meu coração, de saber que tem muita gente que gosta de mim, até pessoas que eu pensava que não gostava, hoje gostam de mim mesmo, quando eu voltei me deram vários abraços, eu gostei prá caramba.”
Ulisses tem uma estatura média cabelos castanhos e a cor da pele amarela, é um jovem que luta por seus objetivos, quando não alcança, seu grito de rebeldia desperta, seus sentimentos de terror começa a oscilar, as angustias faz com que transgrida toda ‘ordem’, suas composições transpiram um ser com uma simplicidade da vida. Sua escrita fala de amores, paixão, e crime. Agressivo em algumas composições e romântico em outras, se expressa com a música para transmitir a essência de seu ser, em um lugar onde o amor e o ódio prevalecem.
Videoclipe
Musica – Lembranças
Composição - Ulisses
Em
uma das oficinas, Ulisses fala do interesse em gravar mais um videoclipe, de
uma das três músicas novas, as quais duas musicas feitas quando estava preso.
Estávamos em uma sala no interior do projeto, quando ‘batia’ no relógio
13h40min, foi quando Ulisses saca do bolso um CD e coloca no aparelho de som, o
qual se encontrava em cima de uma mesa nos fundos da sala. Ulisses queria
mostrar algumas batidas de músicas, as quais usaria para gravar a composição.
Ligou o aparelho de som, tirou o CD da capa e colocou para tocar. Nas primeiras
batidas, a letra já decorada, buscava encaixar a composição com o ritmo das
batidas.
Durante esse tempo chega Nego, vocalista do
grupo ‘Morro em Ação’, que também participa das oficinas, fica observando meio
inquieto, pois estava curiosos para ver a pré-montagem do videoclipe, ‘E a Paz
Renascerá’, o qual estamos quase que finalizando. Falo então para Nego ‘fazer
um tempo’, pois Ulisses estava apresentando as musicas. Terminado de ouvir as
composições, fomos assistir o videoclipe do ‘Morro em Ação’. Nesse tempo
Ulisses vai embora. Ligo para ele, para saber onde estava. Então fala para
passar na ‘Lan Rouse’, perto de sua casa, que às 19h iria para o estúdio gravar
uma das canções. Imprimi o ‘rascunho’ o qual tinha- mos escrito com alguns
fragmentos da canção e o local onde iríamos gravar.
Por
volta das 16h, Aquiles amigo de Ulisses me esperava no portão do projeto.
Durante o percurso até a comunidade,
Aquiles comenta da vontade de cantar junto com Ulisses, fala que Ulisses o
chamou um dia desses, para uma participação em um de seus shows. Estava um
pouco confuso, pois Aquiles nunca cantou para um público, mas estava confiante.
Passamos
na ‘Lam Rouse’ e Ulisses não estava, então fomos para sua casa, localizada a
duas quadras dali. Já no prédio onde Ulisses mora, Aquiles grita em direção a
janela do quarto, e nada. Subimos. Chegando ao quarto, o som no ‘talo’, tocando
suas músicas. Entramos e ele nos mostrou um caderno, com composições e textos
por ele criada. Cantou algumas músicas antigas as quais nem se lembrava mais e,
em seguida começamos a gravar as imagens. Entrego a câmera para Aquiles filmar
e me retiro do quarto. Realizada as gravações, Ulisses fala que estava alugando
o quarto, o qual era forrado com telhas ‘brasilite’, nas paredes via-se as
marcas deixadas pela chuva, na janela havia uma espécie de cortina com retalhos
de um lençol. O quarto tinha retoque particular, com nomes escritos pelas
paredes, bichos de pelúcia em cima dos móveis. Uma cama encostada na parede, ao
lado uma cômoda onde em cima se encontrava um aparelho de som e atrás um
espelho. Quando Ulisses fala que precisava de dinheiro, um tímido olhar em seu
rosto diz, que não quer mais violência, seu olhar tímido e silencioso se enche
de lágrimas, então ele vai até o corredor e fica olhando a comunidade. Em
seguida, Aquiles caminha em sua direção, fico no quarto, olho para a mesa e
avisto a câmera, pego-a e filmo o quarto, seus carrinhos, seus bichos de
pelúcia, seus quadros com nomes familiares, feito quando estava preso. Sai do
quarto e capto uma imagem deles conversando sobre momentos familiares do
passado. Após alguns instantes, entram no quarto quietos, então, começamos a
ler o roteiro. Uma das cenas que tínhamos ‘bolado’, era abrindo a geladeira e
não tendo nada o que comer, o que na letra da musica se encaixaria com a parte,
“tem muito pai de família, que não tem seu alimento, para poder alimentar seu
filho, que está no veneno”. No momento em que íamos gravar esta cena, o quarto
estava escuro, o que nos prejudicava a falta de luz no local, então Ulisses vai
ao quarto vizinho buscar outra lâmpada. Quando volta, sobe em cima da cama e
liga a lâmpada no bocal. A lâmpada no momento de ligar queima. Então Ulisses
vai até o mercado comprar outra lâmpada, quando volta nos informa que tem uma
viatura da polícia parada em frente ao seu prédio. Até então não nos
preocupamos, estávamos todos no corredor conversando sobre as cenas. Alguns
minutos se passam, em seguida, entram três policiais enfurecidos no corredor.
Um deles com um fuzil na mão, aponta em nossa direção e fala para ficarmos parado,
quando chega próximo a nós, manda entrar os três dentro do barraco. Ao entrar,
um deles fala, ‘a casa caiu’, após entrarmos, os três policiais entram e fecham
a porta. Um dos policiais olha enfurecido para Aquiles e pergunta:
-
O que tava fazendo no corredor olhando para baixo?
Eles
acharam que Aquiles era um olheiro, Aquiles responde em um tom meio alterado:
-
Não tava fazendo nada não.
O
policial olha pra ele, e derrepente, com o ‘coturno’ todo preto, lhe dá um
chute no peito, em seguida fala para ele falar na ‘boa’. Pergunta novamente o
ele que estava fazendo ali, e ele fala novamente, que não estava fazendo nada.
O policial não contente com a resposta, avista um martelo, então pega o martelo
e começa a martelar os dedos dos pés, Aquiles de chinelo gritava, Gritos e
gemidos ocupam o espaço, Aquiles da dois
passos para trás, o barulho dos gritos se misturam com as marteladas, um
tenebroso eco ouvia-se do lado de fora, mais dois passos para trás, Aquiles de
chinelo implorava para não bater:
-
Não senhor, eu não fiz nada, para. Por favor, senhor para eu não fiz nada.
O
policial insistia em perguntar o que ele estava fazendo ali. Não satisfeito,
pegou uma escova de dente e colocou em sua boca. A escova enfiada até a
‘guela’, sufocava Aquiles que começou engasgar. O policial, com o martelo na
mão, ameaça a bater na escova, se caso não falasse o que tava fazendo. Neste
momento tentei intervir. O policial olha em minha direção e diz pra eu calar a
boca. Nessa hora Ulisses fala:
-
Ele não tava fazendo nada não, senhor.
O
policial Pergunta:
-
Você é advogado dele agora?
O
policial vai em sua direção e Ulisses fala:
-
Nó is tava gravando um videoclipe.
Não
deram nenhuma atenção, e chamaram Ulisses para o outro barraco. Nesse tempo, o
outro policial vem em minha direção e começa a me revistar. Pergunta se eu
tenho baseado, pega minha bolsa e começa a procurar. Enquanto procura, fala:
-
Se tiver é melhor falar.
Entrega-me
a carteira, e acha no bolso da bermuda, a letra da música que Ulisses tinha
escrito quando estava preso. Começa então a ler. Esperava a reação do policial.
Olho para Aquiles de cabeça baixa inconformado com a situação, eu anestesiado
prendendo a respiração pra um possível murro no estomago. Qual seria a reação
quando terminasse de ler? O que iria pensar? Eu seria a próxima vítima?
Disfarçadamente, olho para seu rosto, sinto que a letra da música entrou em sua
mente. O quarto fica em silencio, como se tudo tivesse paralisado naquele
instante, como se a natureza tivesse neutralizado a vida, os pássaros, os
ventos, o homem, o planeta, a galáxia. O mundo parou, pensava em tanta coisa e
não pensava em nada. Quando o policial começou a ler a carta, estava com a
fisionomia do rosto um tanto tensa, assustada. Naquele momento já tinha mudado,
sua respiração estava mais tranqüila, seu olhar mais calmo. Entrega-me a letra
da musica e nada fala, fica observando o quarto. Olha para os carrinhos, para
os bonecos de pelúcia, os nomes dos parentes pendurado na parede. Abaixo a
cabeça e não falo nada, pois queria contemplar aquele silêncio. Escutava o
canto de Ulisses, não sabia se cantava no outro quarto, ou se era fantasia
causada em minha mente pela situação. Nesse momento, o policial que estava no
outro quarto com Ulisses, volta com a filmadora na mão. E pergunta:
-
O que você faz aqui?
-
Estamos gravando um videoclipe, como Ulisses já havia falado. Então o policial
diz:
-
Volte a fita, que eu quero ver essas imagens.
Pego
a filmadora e volto à fita no momento em que Ulisses cantava. Dois dos
policiais assistem e o outro olha desconfiado. Um olha para as imagens e fala
para o outro com um sorriso no rosto.
-
É uma musica melódica. Não é que o menino é bom mesmo.
Após
a fala toda tensão que existia no ambiente, se esvai em uma única palavra.
Então paro a fita e volto desde o início. Eles assistem calados, e vêem o
momento em que Ulisses abre a geladeira e não tem nada o que comer, e assistem
também o momento que Aquiles estava no corredor consolando o amigo.
Quando se vê a um resultado alcançado, algo concreto
produzido coletivamente, cada qual dando sua contribuição, se eleva a
auto-estima e sentimos uma grande satisfação. Isso leva as pessoas ao redor
também a se deslumbrarem pelo processo. Na gravação desses videoclipes, os
jovens vêm freqüentando mais as oficinas. Alguns dos jovens não acreditavam que
podiam realizar esse processo de construção coletivo, mas, após o trabalho
finalizado, tem um retorno positivo. Um dos jovens me falou que um dia desses,
assistiu mais de cinqüenta vezes o videoclipe, para tanto, devemos mergulhar no
mistério do desconhecido que as imagens nos oferecem, pois a função da imagem é
a expressão da própria vida.
Musica – Morro em ação
Composição – ‘Morro em Ação’
Esta etapa dos
encontros, foi realizada, devido a um mal entendido a respeito dos adolescentes
que cantaram a musica do grupo ‘Morro em Ação’, no vídeo Intercambiando, no qual os jovens apresentam a comunidade, em um
vídeo a ser intercambiado com projetos sociais no Rio de Janeiro. A música, com
a autoria do grupo de rap ‘Morro em ação,’ o qual, grande parte dos jovens que
freqüentam o projeto, são influenciados. Após o fato mal entendido, vieram a fazer parte das
oficinas.
Após
o não entendido, o videoclipe.
Écuba
chega assustada e fala que precisa falar sério comigo. Pela fala tranqüila,
mesmo assustada não me preocupei:
-
Meu primo falou que não era para os moleques cantar a música deles, muito menos
mandar para o Rio de Janeiro.
Uma
leve fantasia, então pergunto:
-
Eles assistiram o vídeo.
-
Não.
Preocupei-me.
Alguns
dias meio tensos passei. Não sabia qual seria a reação do grupo, não os
conhecia, queria falar com eles do acontecido; do conteúdo da letra da música;
da capacidade que eles têm para criar e se expressar; do espelho que são para
muitos dos outros jovens; da boa recepção no Rio de Janeiro, tendo uma resposta
positiva ‘sem perder o tom’; os dias iam passando e a tensão permanecia.
Passou
duas semanas, um dos integrantes do grupo aparece. Todo descontraído, com um
boné na cabeça, sem camisa, com uma tatuagem de um dragão no braço, cumprimenta
todos, até então não sabia quem era, vem em minha direção e pergunta:
-
Foi você quem gravou o vídeo, com a nossa música?
-
Foi.
Achei
que ia vim encrenca, não deu tempo de falar mais nada. Ele fala:
-
Eu sou Nego, um dos vocalistas do grupo. Você acha que tem condições de gravar
um videoclipe dessa música que os moleques cantaram.
Após
a fala, toda a tensão acumulada se esvai, toda aquela fantasia a qual tinha formulado
em minha cabeça dos moleques, se transforma em entusiasmo. Uma
sensação que naquela fala tinha muito que falar, um poeta das ruas que pensa
com as palavras, exibindo a vida e expressando sua visão de mundo, “vamos todos
levantar a cabeça e mudar essa situação, vamos todos levantar a paz e com
paixão vamos todos dar as mãos”, então, sentamos e conversamos sobre o grupo, as
musicas e a comunidade.
.
Após
a conversa, combinamos o dia das filmagens, falei para Nego e os outros
integrantes do grupo, pensarem e refletirem os lugares que eles mais gostam e vive
diariamente na favela, e no que esses lugares se identificariam com a parte que
cada integrante canta na música, para com isso, pensar a música com imagens.
No
dia das filmagens estávamos com duas câmeras, modelo mini dv. A idéia era que
os próprios amigos, a partir de breves instruções do manuseio dos equipamentos,
filmassem o videoclipe, para ter um olhar de dentro, um olhar de quem só está
lá dia-a-dia pode captar.
No
caminhar até a favela, Nego encontra um conhecido que dormia jogado em frente a
uma agencia bancaria, devia ter passado a noite ali, seu rosto um tanto inchado
começava a queimar devido ao sol das 10hrs da manhã; Nego fala que ele mora na
rua, e teve a idéia de fazer uma cena, a qual na letra da música ele canta,
“olho pro céu, meu deus do céu, até quando o meu povo vai sofrer? Pergunto a
você”. No de decorrer das filmagens, em cada casa dos integrantes do grupo que
passavá-mos já se tinha uma cena em mente, e então gravávamos. Após a manhã de
filmagens, marcamos de assistir as imagens na parte da tarde, para podermos ter
um primeiro olhar das imagens do grupo e da comunidade.
Alguns
dias se passaram, e no dia de escolhermos as cenas para o vídeo, discutimos
quem filmava em cada momento das cenas, e se havia significado especifico em
determinada cena. Onde esse significado se sustentaria no discurso da letra da
música. Pretendíamos com essas perguntas e questionamentos refletir a magia das
imagens no cotidiano daqueles que a vivem na sua forma espontânea. Um olhar de
como se estivéssemos vendo o mundo pela primeira vez.
Videoclipe - Morro em Ação
Morro em Ação
Musica - A Paz Renascerá....
O
tema abordado pelos jovens nesta oficina, foi gravar um videoclipe da uma
música do grupo, ‘Morro em Ação’, que em sua composição fala sobre a paz.
As
atividades se desenvolveram com mais um companheiro, Anderson, estagiário de
Serviço Social, que participou nas discussões em grupo na construção do roteiro
e nas filmagens.
Após
apresentação do grupo para os demais, iniciamos o encontro com a leitura da
letra da música, logo após, ouvimos a música. Discutimos quais os sentimentos
que a música traz, e como esses sentimentos traduzem imagens. Por alguns
minutos, todos pensavam, um silêncio se expandiu pela sala, logo foram surgindo
idéias do que escrever com as imagens; crianças brincando no farol; pessoas com
fome; pessoas presas; no cemitério e tantas outras.
Destacam-se
alguns fragmentos das anotações:
-
Qual a paz que eu quero seguir para ser feliz?
- A paz
existe? Como chegar à paz?
- Criança brincando;
morador de rua;
-
E a paz renascerá das cinzas (imagem de fogueira)
- Imagens
de destruição - Guerra, desmatamento, furacão, fome, miséria;
- Contraste
imagens – Natureza, animais, florestas, rios;
- Campinho
Vila Carioca (Quermesse)
- Museu do
Ipiranga (com a Família)
-
Alojamento; Parquinho; Passeata da paz.
Num segundo momento, assistimos três
videoclipes, dois feitos em oficinas anteriores, onde foi possível discutir
como foram produzidos, tendo dois adolescentes relatando o processo de criação
de algumas cenas.
Após
assistirmos os vídeos, retornamos a ouvir a música, com a luz da sala apagada,
onde cada um foi falando de uma visão dos lugares onde a letra da música os deportava.
Em seguida, solicitamos que cada um escrevesse essas cenas. Quais são essas
imagens? Onde podemos consegui-las? Em uma parte da letra, a música fala ‘a
escola é a solução, não cai na armadilha do satanás do cão’. A cena era o
contraste de crianças vendendo droga, outra cena era, ‘vencedores são aqueles’
pessoas indo ao trabalho.
Durante
a oficina foram realizadas algumas perguntas para os integrantes do grupo.
Como
surgiu o ‘Morro em Ação’ ?
Morrão
(vocalista): “Os mano tinha um grupo, e eu via, desde pequeno os cara cantando,
eu pensava, nossa que legal! Eu até fiz uma montagem. Ai certo dia, eles me
chamaram pra cantar com eles, falei, ‘to preparado’. Fizemos um show num dia
lindo...mas essa caminhada não foi fácil não, passamos várias dificuldades...Nós
não estamos pelo dinheiro mas, sim, pela graça de todos. Agente pode tá
passando praquele menor, que eles tem uma missão, uma nova integração... Teve
uma vez que eu e mano Nego fizemos uma música, ‘A paz renascerá’. Fizemos a
música meu coração bateu forte, quando eu desci do palco, meu irmão, o bagulho
foi muito lindo! Chorei, parece que um espírito entrou no meu corpo, ficou fora
de mim. Só deixei levar no balanço da musica e da multidão, eu achei que foi o
momento mais emocionante mesmo, pra mim, ta ali e não desistir do que eu quero.”
No
encontro passado marcamos de ir ao centro da cidade, assistir um filme e fazer
algumas imagens para o videoclipe da música, ‘E a Paz Renascerá’. Os moleques,
como de costume, chegaram atrasados ao combinado. Um dos vocalistas, Morrão,
trouxe sua namorada e um de seus sobrinhos. Nego com sua esposa e seu filho,
Morrão trouxe alguns cartazes que fez com mensagens e desenhos. A cada cartaz
que abria, um brilho no seu olhar se estendia, seus desenhos simples como as de
uma criança e com intensos significados, nos fala da paz, da liberdade, da arte
de viver, dos caminhos obscuros e floridos nos quais caminhamos, no qual
vivemos...
Quando
todos então chegaram, saímos em direção ao ponto de ônibus, uma parada na
lotérica para carregar o bilhete do ônibus. No ponto de ônibus, todos esperando
sentados e quietos, o ônibus chega. Durante o caminho sentado em um dos bancos
do ônibus e folhando a programação da galeria Olido, local onde assistiríamos ao
filme, Nina e Nego pedem a câmera,
entreguei-a e falei onde ligar, desligar, gravar, parar, as instruções básicas,
falei também se quisessem fazer perguntas, à vontade. Foi um gesto natural, Nina
ligou a câmera e começou a fazer perguntas para os integrantes do grupo, sem
roteiro, sem nada programado, apenas com curiosidade de quem também está ‘curtindo’
aquele momento.
Já vinha há
alguns dias percebendo a vontade que Morrão e Nego estão para se expressar,
falar de suas vidas, de suas histórias; evitei captar esses momentos, achei melhor
em uma situação a qual fosse espontâneo, porém, pensei, ‘é agora, nada melhor
que a namorada do Nego, para isso.’
Após
vários encontros, já tínhamos um material para iniciarmos a seleção das imagens
para o videoclipe, o processo foi o mesmo do videoclipe passado, onde assistíamos
quem captava as imagens e onde as encaixaríamos no contexto da letra da música.
Assistimos
a primeira montagem, onde estava presente oito adolescentes, no final
discutimos as imagens para ver qual sairia e discutimos o vídeo como um todo; a
letra da musica, as imagens de guerras, destruição, meio ambiente e a respeito
da paz. Nas discussões das cenas Rosa fala:[1]
“Eu acho que esse vídeo é uma coisa artificial, que é a idéia que vocês estão na paz. A gente não está na paz. A gente tá num mundo de muita guerra. Até pra ter a paz agente tem que guerrear. Vocês não têm emprego, essa paz do senhor é uma paz abstrata. Não temos a paz real, do emprego, do salário; muitos não têm o que comer, então, eu acho que a música de vocês deveria pensar um pouco nisso.”
Após a fala, Morrão diz que tem outras músicas com temas variados, e fala o que pensava quando escreveu:
“A gente mesmo sofrendo, a gente tem que sorrir, A gente quer passar para outra pessoa, que mesmo sofrendo temos que sorrir, encontrar a paz no seu modo. Se você não for bater naquele, você tá em paz. Se você não for procurar a “boca”, a “boca” não vai vim procurar você.”
Após a fala, Rosalina continua:
“ O homem é quem faz a sua história, e sua vida, não é Deus quem faz a vida dele. Todo ser humano faz sua história, claro que não a faz sozinho(...) não ter vergonha de nossa história, que é a da classe trabalhadora, daqueles que vivem nas ruas, que viveu na cadeia e as pessoas que vivem na violência; não tem que ter vergonha, por que essa é que é nossa história. É preciso refletir sobre ela”