No
mês de Dezembro de 2005, com a possibilidade conhecer e interagir com outras
comunidades, que trabalham com o audiovisual, foi elaborado pequenos formatos
de vídeos, para um intercambio entre comunidades.
Um
dos objetivos desta atividade foi conhecer e trocar experiências com
comunidades que trabalham com a linguagem audiovisual. Optamos em ir para o Rio
de Janeiro para conhecer e manter contato com projetos sociais inseridos na
comunidade. Saímos de São Paulo, levando um material gravado pelos jovens com curiosidades
e fantasias sobre o Rio de Janeiro, tais como, perguntas sobre o dia-a-dia do
morro, como trabalham na realização de um filme, de um documentário, procuraram
também expressar o dia-a-dia vivenciado por eles em São Paulo , e os
diferentes modos de comunicação através das linguagens cotidianas periféricas
das grandes cidades.
São
Paulo... Rio de Janeiro
Depois de ter escutado várias histórias sobre
os morros do Rio de Janeiro, uma delas fala de não subir o morro sem algum conhecido.
A princípio tinha o contato com o projeto NósdoMorro, sua sede fica no Morro do
Vidigal, Zona Sul do Rio de Janeiro, entre o Leblon e São Conrado. Entre
barracos, prédios de classe média, motéis e um hotel de luxo, vivem cariocas e
gente de vários Estados do país.
A
ocupação da área começou em 1941, entre a Av. Niemeyer e a Praia do Vidigal. Em
1950, os barracos foram removidos para a parte alta. A Associação de Moradores
foi criada em 1958, para evitar uma ação de despejo, atualmente tem cerca de 30
mil moradores.
Quando
lá cheguei, tentei ligar para Caetano, (arte educador do projeto NósdoMorro)
com a finalidade de ir até o projeto, porém, não conseguindo o contato, resolvi
mesmo assim ir até a comunidade. Quando liguei estava em Niterói, depois de uma
hora e meia, me desloquei até o morro do Vidigal. Chegando no morro, duas viaturas
da polícia estavam paradas na entrada do morro. Pois, não sabia o que estava acontecendo,
se havia algum tipo de confronto, atropelamento, não ouvi nenhum tiro, então,
fui subindo em direção aos mototaxis, que sobem e descem com moradores e
visitantes do morro. Subo na moto e o motoqueiro sai em disparada em direção ao
projeto, antes que eu indicasse o local para onde ia. Pergunto:
- Como você sabe a onde vou?
- Só pela aparência das pessoas já se sabe
quem é quem.
Chegando
ao projeto conheço Caetano, que me apresenta o projeto:
“O NósdoMorro é muito
respeitado, são 300 pessoas da comunidade que são atendidas, em uma comunidade
de aproximadamente 30 mil pessoas. Os bandidos têm respeito pelo projeto, ele
acha legal que uma criança esteja num projeto social e respeita esse trabalho. O
grupo cultural é muito maior que o grupo dos bandidos, quando se vê uma criança
do projeto na televisão, fazendo filmes ou ganhando algum prêmio, todo mundo vê
e comenta.”
Após a apresentação, contou o processo de
gravação do filme Neguinho e Kika. No
fime, Neguinho se apaixona por Kika, vivendo uma história de drama, paixão e
violência. O filme foi rodado no Morro do Vidigal; e conta com todo elenco e
grande parte da equipe-técnica do NósdoMorro e moradores do Vidigal.
Durante as gravações do
filme, estava rolando uma guerra entre os traficantes e a polícia, então, o
projeto pediu autorização para o comando da polícia e avisou parte do movimento
do tráfico do Vidigal. Ambos os lados pararam a guerra para rodar o filme,
foram seis dias de filmagens...quando os caras queriam testar uma arma, eles
passavam o rádio: aí, estão filmando? Agente só vai dar uns tiros pra testar
uma arma, pode-se; pá, pá, pá… Quando acabaram as filmagens, começaram a guerra
no mesmo dia”.
(Caetano, NósdoMorro - RJ)
No
dia da apresentação das imagens dos jovens de São Paulo, teve uma reunião no
projeto NósdoMorro, onde estavam presentes 12 jovens do projeto NósdoMorro e um
representante do ministério da cultura, onde debatemos e discutimos a
democratização dos meios de comunicação, e em seguida assistimos as imagens dos
jovens de São Paulo.
“Ai, falam que o
"baguio" é só crime, fala que os cara cola de fuzil, nunca tem
humildade, Fica tirando as pessoas, isso aí eu acho errado. Eu fui morar um
tempo aí, e não é assim...aí se dá essa idéia pros moleques daqui de São Paulo
entender que não é assim. Eu sei que voçêis também tem uma idéia errada daqui
de São Paulo, pensa que as favelas daqui é maior crime, mas não é assim. Aqui é
uma comunidade, todo mundo unido, eu queria saber se aí é a mesma coisa,
entendeu, vocêis manda a letra pra nóis aqui, e tamo tudo junto.”
Depois
de assistirmos as imagens dos jovens que freqüenta o projeto “Refazendo
Vínculos”, teve respostas dos freqüentadores do NósdoMorro.
“Em toda comunidade
existe a violência, mas existe muito mais do que isso, existe cultura, existe
arte, existe gente que quer aprender, que fazer, agente tá aqui não só pra
aprender, mas pra ensinar depois, e lutem, lutem muito pelo sonho, e por aquilo
que você is querem, que você is vão conseguir, assim como a gente ta
conseguindo”.
Observa-se
que do projeto sai muitos artistas, técnicos, pensadores. A força que tem o
projeto é maior do que se consegue atender diretamente, é o que aporta ao
imaginário da comunidade e como isso coloca a comunidade na sociedade.
“Aqui é Guti Heliópolis,
queria saber como é o morro aí em cima, nóis qué saber como vocêis fazem nas
gravações aí. Manda a letra aí pro Marcelo trazer pra nóis aqui no Heliópolis,
pra nóis vê qual é a sintonia”.
(Jovem -
Refazendo Vínculos - SP)
“Agente faz cinema muito
mais com a vontade, e é claro estudando a linguagem, estudando a montagem,
principalmente com a idéia. Se você tem uma idéia simples, pega uma câmera e
conta a sua história, e vai experimentando que você is vão aprender fazer legal...
as vezes o jovem da favela quer ser bandido, porque o bandido tem grana, tem
poder, tem a mulherada atrás dele, tem um fuzil todo “cromado”, tem um tênis da
moda, o jovem quer ser igual.”
(Caetano, NósdoMorro - RJ)
Fruto
de uma Oficina de Relações de Gênero, apresentamos uma composição das meninas
de São Paulo com uma proposta feminista:
“Com uma força feminista
contra a desigualdade, procurando por justiça entre a sociedade, agindo com a
voz, falando com sinceridade, abrindo os olhos das minas, para a realidade.
Queremos que haja uma conduta entre homens e mulheres, todas unidas nessa luta
igualdade eles não querem...não sou capaz de desistir do que me pertence, e com
esse objetivo eu sigo em frente, não vou me rebaixar, não vou desistir. De
cabeça em pé, as portas vão se abrir, eu tenho raça e coragem, como prova do
meu valor, mulheres independentes escolhe o ódio ou o amor”.
Falando
da periferia, da discriminação um grupo de rap da comunidade de Heliópolis ‘zona
sul’ de São Paulo, “Morro em Ação,” que influiu na formação musical de alguns
dos adolescentes do “Refazendo Vínculos” cantam neste vídeo.
“Morro em ação, é uma
família, a voz ativa da periferia, um povo discriminado e maltratado. Olho pro
céu, meu Deus do céu: até quando o meu povo vai sofrer? Pergunto a você...Eu
vejo vários manos na correria, falta de oportunidade, dentro dessa vida bandida. Vamos todos levantar a cabeça e
mudar essa situação, vamos todos levantar a paz mostrar humildade e com paixão
vamos todos dar as mãos...”
Resposta na mesma levada do rap, Rio - São Paulo...
“Aí neguinho,
humildimente eu chego no improviso,. Tu tá ligado Rio de Janeiro, Vidigal no
improviso é o qual é, que tá rimando, como acreditando. Preste atenção, se liga
na missão, parceiro com coragem e amor no coração. Eu tô ti falando parceiro,
acredita, porque se liga irmão Rio de Janeiro, São Paulo é nóis na fita. Eu tô
rimando aqui com minha mina e com um camarada fazendo um som. Tá ligado sangue
bom na improvisação. O qual é se despede, humildemente, tu tá ligado parceiro,
lute pela gente, porque aí, nóis somos inteligente, é nóis”
“ Pô velho, aí, tá aqui a prova viva que é
possível mudar, saco. Vamo mudar a mente, saco. Você is tem em torno de 14 a 18 anos, vocêis já podem
mudar quem tem 5 anos, ta ligado......Aí, a favela ta aí, e agente também tá
aqui, mostrando que é possível. O mínimo que vocêis podem fazer é acreditar, tá
ligado....Rio de Janeiro e São Paulo, não existe essa parada de que existe uma
rincha, isso é ficção, manipulação. Tamo junto, porque se não estivermos unidos
vão fuder a gente. Então vamos se unir que é a solução da parada”
(Jovem do NósdoMorro - RJ)
“A gente vê o Vidigal e a
Rocinha aparecerem na televisão sempre em guerra. Nas novelas e
filmes as recriações são exageradas. Por isso, agente fica aflito, desesperado
para mostrar também a nossa dignidade”. (Gustavo de Melo, formado em uma das
oficinas do NósdoMorro)
“No morro são 30 mil
pessoas, 0,001% são bandidos, o resto é trabalhador. A televisão só fala que
tem bandido, só do crime, cadê a parte boa? Cadê falar do artista? Cadê falar
de você is? Eu vi um monte de artista cantando rap, isso não sai na televisão. Quando
eles vão lá falar, só falam que tem bandido. Aqui no morro tem 30 mil pessoas,
30 mil trabalhadores, 30 mil artistas, isso aí é que não está na tela”.
(Caetano, NósdoMorro
- RJ)
Rio – São Paulo
Após
o intercambio entre as comunidades, voltamos para São Paulo e nos encontros
seguintes nos reunimos, assistimos e discutimos as imagens e as situações
vivenciadas no Rio de Janeiro. Assistimos o filme Neguinho e Kika, realizado pelo grupo do NósdoMorro. Por viverem
situações semelhantes a dos personagens do filme, teve uma identificação dos jovens,
o que desembocou em um interesse e participação maior nas atividades seqüentes.
Durante os encontros seqüentes levantamos alguns questionamentos do filme, um
deles é o que leva o jovem a entrar no mundo do crime, discutimos e debatemos
as condições as quais os jovens se encontram, a infância sofrida, a falta de
educação na adolescência, e o desemprego na vida adulta, foram alguns
fragmentos discutidos. Este intercambio, estabeleceu um processo de troca de
experiências, onde se tentou mostrar a dinâmica do trabalho, explorando o
potencial criativo de seus participantes. Criada esta dinâmica estabeleceu-se
uma formatação de um projeto a ser construído com os jovens, pois tivemos o
convite de ir para o Rio de Janeiro conhecer seus trabalhos.
SEGUNDA FASE
Essa
fase das atividades se estendeu durante o ano de 2006, os encontros ocorreram
uma vez por semana, sempre às terças-feiras, das 14h às 17h. Houve a
continuidade das atividades, com a (re) leitura e reflexões das imagens captadas
na fase anterior, a fim de elaborar uma narrativa ou não-narrativa de um
roteiro de montagem, das imagens e idéias captadas.
Aperta REC...
Gravando...
A
oito quilômetros do centro de São Paulo, Heliópolis começou com a ocupações e
compras de terrenos e casas. Segundo o CDPH (Centro de Documentação de
Heliópolis) a maior parte dos moradores são nordestinos ou filhos de
nordestino, mas há mineiros, paranaenses, paulistas e outros, ao chegarem a São
Paulo, quase 70% dessas pessoas foram morar inicialmente de aluguel, depois
vieram para Heliópolis por não conseguirem pagar ou porque entenderam ser
melhor investir na construção de um barraco ou de uma casa.
“Heliópolis tem cerca de
trinta sete anos, se contar com os alojamentos, quarenta e dois anos. Desde o
alojamento setenta e um, e dai em diante ela foi crescendo e hoje é o que é”
(Denis, morador, vídeo Cidade do Sol)
O
espaço da rua é fundamental para a vida social do morador, exatamente porque a
rua é uma extensão da casa. Muitas vezes o que divide uma casa da outra é
apenas uma folha de madeira. Os espaços para as crianças ou adultos se
movimentarem está nas ruas, local de convívio social. As ruas sempre cheias de
gente, principalmente nos finais de semana, vêem crianças brincando, pessoas
conversando, grupos de adolescentes, homens que lotam os bares, praticamente
não existe lugar de lazer.
“Era assim: era um
prédio, aí pego fogo, a polícia foi lá querer tirar eles. Aí teve um confronto
polícia com os manifestante, eles cataram pedras, tacaram nas polícias. Aí
fizeram um acordo pra da apartamento ou casinhas pra eles sair de lá.” (Alan,
morador, vídeo Cidade do Sol)
Durante
as gravações na comunidade, eram nítidas as relações de amizade dos adolescentes
para com os moradores. Tendo os adolescentes entrevistando moradores, pelas
ruas e vielas. Um dos entrevistados é Antônio, um dos primeiros moradores da
Comunidade. Diz ele:
“Quando eu cheguei aqui
era quatro ou cinco casas. Hoje é um bairro, aqui era um terreno dos ricos e
deixou pros pobres, e aí quando os pobres deram fé que precisava morar aqui,
invadiram, fizeram casas, pá, pá, pá e aí até a polícia veio pra toma, e eu
tava no meio, lá no começo” (Antônio, morador, vídeo Cidade do Sol)
O
interesse dos adolescentes em saber a história da comunidade era grande,
perguntas sobre as lutas por moradia, convivência entre os moradores e tantas
outras. Também foram entrevistados, comerciante, grafiteiro, rádios
comunitárias, igrejas e projetos sociais.
Após
as filmagens, entramos em um momento de assistir as imagens. Reunimos em uma
das salas nas dependências do projeto, a qual havia cadeiras, mesa, televisor,
vídeo cassete e um aparelho de DVD. No
início do encontro a sala estava agitada, após o inicio das imagens captadas serem
transmitidas na televisão, foram aos poucos se concentrando. Foi orientado para
observar e refletir as imagens, para ao final de cada cena, escolher quais
imagens captar. As imagens mais significativas, discutíamos e refletíamos o
contexto em que se passa a ação, quem filmava, qual a relação de quem filmava
com o espaço, também refletíamos no enquadramento, na luz, no som. A paciência dos
jovens em ficar assistindo uma cena por muito tempo os irritava, e pediam para
passar adiante. Foi orientado para escolherem as imagens, e nada, só mantinham
a atenção quando tinha algum deles entrevistando ou sendo entrevistado ou
quando tinha algum morador conhecido. Passando as imagens, voltavam à
inquietação. Após duas fitas de filmagens, não se tinha nada selecionado do que
poderia entrar no vídeo. Observa-se, então, o comportamento de alguns em certas
imagens, pois, tinha imagens que prestavam mais atenção do que outras. Foi
quando a partir dessas imagens, iniciou-se a seleção para a montagem.
Percebe-se
que através dos planos isolados, quando estão filmando sem nenhum conhecido por
perto, cria-se, com a união desses planos, o corpo, o qual germinará a
narrativa, as imagens criadas por planos não previstos, se torna em sua
essência mais próxima a realidade local, captadas muitas vezes em seu
inconsciente.
O dia-a-dia da comunidade nos mostra os efeitos e não as causas da realidade retradas acima. Há também uma constante propaganda pelos meios de comunicação, dando ênfase apenas aos efeitos, as más condições de vida, a falta de trabalho, associado a um ambiente propício para o aprendizado da violência.