31 de maio / 2009
Como combinado em reunião
na ultima sexta-feira, cada monitor receberia um caderno para fazer anotações
cotidianas de seus prazeres e frustrações do dia-a-dia da casa.
Cheguei nesta segunda-feira um pouco
atrasado como de costume. Meu horário de trabalho é das 13hs as 17 hrs; chego
as 13:15 hrs. Entro na casa, e me deparo com Gilson (psicólogo) guardando a
escova de dente em sua mochila, pois, acabara de almoçar. Coloco minha mochila
no armário e subo para a cozinha. Entro na cozinha e encontro tia Lina
(cozinheira), Vanessa e Anderson (monitores).
Durante o almoço Vanessa
me entrega este caderno, ao qual escrevo. Não sabia o que escrever, pois já
vinha fazendo essa escrita com a filmadora, agora com a caneta mais uma
aventura, fiquei confuso se começaria escrevendo algo que não vivenciei, e
talvez o queira vivenciar, ou estas palavras nas quais me encontro mais
próximas, por hora não penso em historias as quais não tem a realidade como a
grande inspiradora, penso que escrever belas historias, antes, temos que vive-las.
Descrever as vivencia da casa, seus diálogos e aproximações com as pessoas,
seus conflitos e contradições, angustias e prazeres, ódios e amores, tarefa
difícil em um lugar repleto de ternura e revolta, mas é esse o pensar, a
complexidade das relações mundanas, como criar mundos e realidades, em uma
sociedade onde tudo é dado, como criar um sentido maior na realidade, da
liberdade a qual fala Tarkoviski, ‘para
ser livre, é preciso apenas sê-lo, sem pedir a permissão de ninguém. É preciso que se tenha os próprios postulados
sobre aquilo que se é chamado a fazer, e guiar-se por eles, sem dobrar-se as
circunstancias ou ser cúmplice delas. Porém, essa espécie de liberdade requer
um elevado grau de autoconsciência, consciência da responsabilidade para
consigo próprio e, portanto, para com os outros.’ O autor fala
“autoconsciência” o que requer o respeito ao outro, as diferenças e
singularidades de cada situação. Ouço um grito, Gilsom me chama, “a casa não
para de chegar adolescentes”, depois de um tempo de ausência dos adolescentes,
devido às férias escolares, hoje voltam, descontraídos, brincalhões e cheios de
energias. Falas e risadas ocupam o quintal, então, encontro com Nego (vocalista
do grupo de rap Morro em Ação - Heliópolis) e falo:
- Olha quem ta aí:
- E ai Nego, tudo bem? Com um olhar
inesperado, Nego fala:
- Eu to firmão, e você como tá?
Após um tempo ausente,
aparece, traz seu filho agora com um ano de idade. Um pouco diferente da ultima
vez quando nos vimos. Na época, trajava terno e gravata. Estava freqüentando a
igreja. Hoje, estava com a camisa do Corinthians, e continuava a freqüentar a
igreja, mas não mais ‘pregando’, como da ultima vez.
Pergunto a ele se
continua cantando, “estava freqüentando a igreja, e ‘dando’ um tempo sem compor
e cantar musica, preciso refletir mais minha vida”. Contou a repercussão com os
amigos do vídeo clipe, ‘E a paz renascera’,
muitos parentes e amigos assistiram ao vídeo, tendo alguns falando bem,
na fala um tanto emocionado, diz que “muitos conhecidos os quais tinham uma
visão pejorativa do grupo ‘Morro em Ação’, depois de assistir o vídeo, nos olhava
e tratava de outra forma, mais alegre, mais companheiro, mais próximo.” Situação
interessante de se pensar, que para termos o respeito da sociedade temos que
mostrar algo a ela, seja bens, amizades ou títulos, me lembro da frase “me
mostre o que tu tens, que eu te direi quem és”. O que nos impede de sermos
realmente livres? O porque da violência de impor de como deveríamos pensar, ao
invés de nos ensinar a pensar. O porquê a permanência dos fatos e das idéias?
se escondendo na tradição, no já dito? Será que não podemos descobrir o mundo
com nossas próprias vontades que nos constitui ou que nos faz viver?
Nego continua inquieto, pergunto a
ele:
- E aí Nego, como anda o pessoal do
grupo, Morrão, Dário, Rocha.
- A galera tá firmeza, Dário e Rocha
tá trampando, Morrão ta procurando emprego, o filho dele nasce mês que vem.
Falo:
- O mesmo mês de meu aniversário,
abril.
Nego está trabalhando em uma fábrica
de peças para carro, perto de sua casa, veio hoje ao projeto porque perdeu o
horário do trabalho.
Tia Lina me chama.
- Poderia fazer um favor pra mim?
- Qual é agora, tia.
- To com tontura, poderia ir até a
farmácia comprar uma novalgina.
Me entrega o dinheiro e saio em
direção a farmácia.
Na volta passo em um ‘boteco’ e
compro um café, peço no copo descartável para ir tomando. Chego ao projeto e
entrego o remédio para tia, que me esperava com um copo de água na mão. Entrego-lhe
o remédio, então diz que comprei o remédio errado, em vez de comprar o remédio
novalgina, comprei neovalgina. Não estou acostumado a diferenciar os milhares
remédios das drogarias, ainda mais quando os nomes são parecidos. Sempre tive
uma resistência em tomar algum tipo de medicamento, para não me tornar um
viciado das ‘drogarias’, contribuindo para uma das maiores indústrias químicas
do mundo. Existem outros meios de cura que a natureza nos oferece, mais que a
ciência faz questão de resistir, por qual motivo será?
Desço da cozinha e encontro com os
monitores, André e Adriana, cumprimentavam os jovens Gilson, Richard e Rafael
que acabara de chegar, e indo direto para cozinha. Então fica, eu, Gilson e
André, conversando sobre as atividades da casa. André esta ansioso com a
chegada da possível futura coordenadora, comentava qual o perfil de
coordenadora para trabalhar no projeto? Como seria? Autoritária, maleável,
conseguiríamos que a auto-gestão se concretizasse. Penso que uma auto-gestão é
um processo complexo de se realizar nessa situação a qual nos encontramos. Por
se passar com uma equipe inexperiente de trabalho em grupo, onde estamos aos
poucos nos conhecendo. Penso, a princípio, se não partir de nós mesmo, em
acreditar e praticar sua visão a respeito do que é capazes de realizar, não se
constrói nada, e com o tempo fica desgastante a convivência, pois, cada qual em
suas idéias e práticas busca um sentido para sua ação, e quando não se tem a
comunicação passamos por situações onde o cotidiano, a vida se torna opressiva
e violenta.
Conversamos de tentar reunir a equipe
para discutir as atividades da casa, levantamos várias propostas, retornar os
grupos temáticos de discussões, voltar a oficina de bonecas e de vídeo, esta,
após comprarmos uma TV e um aparelho DVD, os quais foram roubado no último
carnaval.
Quando comecei a escrever não pensei
em relatar o passado, quais influencias temos do nosso passado, já que os
acontecimentos do passado reflete a realidade presente. Comentei do passado, por lembrar de um cartaz que se
encontra pendurado em uma das paredes na
entrada do projeto, que diz: “não se trata de preservar o passado, mas sim as
esperanças”, cada pessoa, em cada espaço
e tempo criam suas histórias. Lembremos de Gorki que fala, “o corpo tinha frio,
mas na alma havia uma alegria serena e também germinavam brotos tenros de
esperanças luminosas”, infinitos pensares constroem o homem, para dar
significado e sentido a sua existência e conseqüentemente expor suas idéias. “O
ser humano é uno, em qualquer lugar e época que esteja, não precisa de uma
autoridade para dizer quem és, mas sim educar o espírito para o amor.”
Após a conversa com
Gilson e André, os meninos descem do almoço, todo silêncio que havia no espaço
se esvai, a agitação contagia o corredor, causando um eco estrondoso, causado
pelo ‘burburinho’ de todas as falas ao mesmo tempo. Então, um dos meninos,
Diego, pergunta qual a atividade de hoje na casa. Nós da equipe, sem um
planejamento prévio que estruturasse em uma proposta, ficamos conversando,
‘enrolando’ o que poderíamos estar propondo de atividade. E nada. Olho para o
jardim, o mato encobria as plantas. As flores sufocadas, pediam socorro. Há
alguns meses atrás, Luiz, um antigo funcionário, era quem cuidava do jardim.
Lembro-me de todo o dia que chegava ao projeto, Luiz estava cuidando das
plantas, ou plantando, ou regando-as, ou aparando-as, parecia que conversava
com elas, conversava com tanto carinho, que os alguns meninos achavam que Luiz
era louco. Hoje, olho para o jardim, e lembro de Luiz dizendo “a mudança começa
pelo lugar onde pisas”, penso que seria uma proposta bacana para fazer-mos,
semear o jardim. Caminho então, em direção as plantas e começo a tirar os matos
com as mãos, em seguida vem Diego, agacha e pergunta “o que você ta fazendo?”.
- Tirando os matos e também as
trepadeiras que estavam afogando as plantas.
– As trepadeiras é uma praga da
região aqui do Ipiranga, vai trepando nas plantas até matá-las, por isso temos
que tirá-las, para evitar que este jardim desapareça.
- Posso ajudar? O que tenho que
fazer? Ao mesmo tempo em que as cortava, falava:
- Você puxa esse galho, bem próximo a
terra, para sair toda a raiz, pois assim, vai demorar mais para o mato crescer.
Logo em seguida, vem os jovens Diedo
e Levy, em seguida Tiago
e Pamela, uma das meninas, pega a vassoura e começa a varrer os matos tirados
do jardim, outro, pega uma sacola de lixo, e ajuda a amiga. Todos que chegam,
ajudavam de alguma forma. Diego e Levy, saem em disparada, achamos que tivessem
ido embora. Ao voltarem, trazem a companhia de duas mudas de rosa. Pergunto a
eles onde arrumaram aquelas mudas. Diego me olha assustado, com as flores na mão e fala:
- Pegamos no jardim da vizinha, tinha
tantas que ela nem vai sentir falta.
Me olha com um sorriso e logo começa
a cavar a terra com as mãos, e ali a planta-a.
01 de abril
Chego ao projeto e “deparo com a
porta principal da entrada, arrombada, marcas de sangue pelo chão, roupas
rasgadas. A ambulância com a sirene ligada chega em alta velocidade. Gritos,
gemidos, o pavor toma conta do espaço. Um corre-corre congestiona os
corredores. Com um berro, pergunto o que esta acontecendo. Ninguém diz nada,
ninguém sabe de nada.” Essa é a história que o jovem Kell, contaria na favela,
nesse primeiro de abril. Esforcei-me para elaborar uma mentira para contar
nesse dia, acabei não conseguindo, sendo assim, me contentei em ouvir as dos
colegas. André funcionário do projeto, todo descontraído chega do nada no
corredor, onde estavam presente os jovens, Cosma, Kaique, Mosquito e eu. Fala
que o lanche de hoje é cachorro quente com refrigerante e bolo de chocolate de
sobremesa. No momento em que fala olhares atentos, com as pupilas dos olhos
esbugalhados. Mosquito quase sai voando pra cima do André, e fala:
- Todo mundo aqui já sabe que dia é
hoje.
Após o acontecido, no decorrer do dia, foram
surgindo várias histórias sobre ‘a mentira’.
Minha barriga ‘ronca,’ subo para o
almoço. Cardápio de hoje, macarrão com legumes. Não sou muito chegado a
macarrão. Acho que minhas viagens de acampamento, me ‘intoxicou’, mas, o que a
tia Lina faz, sempre se faz uma exceção.
Tem gente nova na casa. Não tive
ainda a oportunidade de conhecê-la. Estava junto com Gabriel, o advogado do
projeto. Pela roupa social que trajava, parecia ser estagiária de advocacia.
Desço do almoço, meio sonolento,
Vinícius, funcionário do projeto me pede um favor:
- Eae Marcelo, vou te ajudar na
digestão do almoço. Você pode ir até o fórum do Ipiranga e protocolar esse
documento.
- Mande ae.
Chego ao Fórum.
- Boa tarde. O segurança que estava
na portaria me olha da cabeça aos pés.
- Olá, por favor, preciso protocolar
esse documento, pra onde eu me dirijo?
O segurança, me olha com uma cara de
cansaço e fala:
- De bermuda não pode entrar não.
- Mas é rápido, é só entrar
protocolar e sair.
- Não, não posso deixar não...
Pela fala séria e cansada, seria
difícil. Pessoas entravam e saiam. Então, sai até a porta, e avisto um rapaz de
terno, segurando uma pasta em uma das mãos, e na outra mão um cigarro. Achei
que trabalhava ali, cheguei até ele:
- Boa tarde.
Olha-me desconfiado.
- Poderia fazer um favor, por
gentileza.
Nessas falas, já mostrava o documento
o qual precisava ser protocolado. Enquanto lia falei do acontecido com o
segurança, e o que precisava ser feito. Terminado de ler falou:
- Eles tem essas frescuras mesmo.
Puxa a ultima tragada do cigarro, e fala:
- Você não é o primeiro que faço
isso, já volto.
- Agradeço.
Fico no aguardo.
Pessoas entravam e saiam. A maioria
com uma pasta ou papel nas mãos. Penso, o quanto de papelada tem ali dentro, o
tanto de vidas que mudaram o seu destino, devido a justiça ou injustiças,
cometidas em favor da liberdade humana, Machado de Assis já dizia “ a natureza
social tem a decrepitude precoce, e um princípio de corrupção, que destrói em
breve termo todas as florescências do primeiro sol”
Passa-se uns minutos. O rapaz volta. Me
entrega o documento protocolado. Agradeço-o.
Na volta para o projeto, encontro com
o jovem Richard, atravesso a rua e vou até ele.
- E ai Richard, como você vai?
- To firmão. Responde com um tom de
fala lento, com um desanimo estampado no rosto. Pergunto:
- Onde você ta indo?
- To indo no supermercado ‘Hirota’,
comprar algo pra comer. Vamo ae?
- Fui até o Fórum do Ipiranga, mó
pernada, depois nóis se tromba na casa. Beleza?
- Firmão.
Chego ao projeto, entrego o documento
para Vinicius. Logo após, Richard chega.
Pergunto a ele novamente, como anda a
vida. Insiste em dizer que esta tudo bem. Pois não era o que Paulo
(adolescente) contou semana passada, antes de ser internado em uma clinica de
recuperação de drogas. Nesse dia, um tanto alterado, talvez por não dormir, ou
por efeito de drogas, falou que Richard estava usando e vendendo drogas na
praça da Sé. Fiquei surpreso com a notícia, pois não condizia com as atitudes
que demonstrava no dia-a-dia. Sua amizade com as pessoas, sua paz com sigo e
com os amigos. Mesmo se encontrando na situação de morar na rua, não oferece
mal a ninguém. Pensei, agora vendendo drogas, vai perder o que tem de mais
grandioso, sua dignidade e o respeito perante as pessoas.
Na conversa com Paulo, percebi que alguns
fatos estavam equivocados, pois Richard continua o mesmo moleque de sempre,
brincalhão e companheiro, mesmo vivendo as injustiças as quais se encontra,
continua a mesma pessoa.
Pergunto a Richard, novamente como
estais. Pela fala tranqüila, não demonstrava conflito interno. Então
conversávamos sobre as ausências desses últimos dias no projeto, falou que
estava no centro da cidade, cuidando de seus pertences e dos conhecidos que
dormem em frente da igreja de São Francisco, local onde dorme todos os dias.
Cada semana um fica responsável pelas cobertas e roupas de todos que ali
dormem. Falo com ele a respeito da internação de Paulo, e se era verídico a
situação que Paulo falara. Ficou ‘puto,’ e assim se desabafou “Paulo é quem sumiu
com a droga que estava vendendo, e os ‘caras’ do centro, falou pra ele não
aparecer mais por lá”.
02 de abril
Entro e deparo com Rosa (coordenadora
do projeto) e os monitores Anderson e Marcos. Discutiam quais características
de uma pessoa, para trabalhar como coordenadora do projeto, sabendo da dinâmica
e funcionamento da casa. Pois, como é sabido, Rosa não esta entusiasmada para
continuar como coordenadora. Então, como seria esta futura companheira de trabalho?
Amigável, tolerável, autocrata, autoritária...? Qual perfil gostaríamos? Perguntas,
questionamentos, dúvidas, incertezas, dias turbulentos...
Rosa fala, da dificuldade que esta
passando em pensar em deixar o projeto “esse projeto é para mim um filho, com
nove anos de carinho e amor”. Situações dolorosas e prazerosas, caminhos
tortuosos e felizes, vidas balançadas, destinos mudados.
Richard chega, abre os braços e
caminha em direção a Rosa, abraça-a e pergunta se ela vai mesmo embora. Rosa
abaixa a cabeça e fala que sim. Um eco silencioso na fala, um brilho no olhar
direciona para Richard. Parecia que não era Rosa quem falava. Richard se afasta
e caminha em silencio para o corredor dos fundos.
Tia Lina me chama “você não vem
almoçar não filhou”. Respondo que sim. Só vou esperar Anderson descer do
almoço, porque estava só eu, Rosa e os jovens na casa. Marcos vai com Richard
ao centro tentar vaga em um abrigo para Richard. Tia Lina da um berro avisando
que a comida vai acabar.
03 de abril
Céu cinzento, dia de chuva. Desço do
ônibus na Rua Lino Coutinho, paralela a rua do projeto, as gotas caem fracas, o
vento frio e gelado atravanca minhas colunas. Caminho em passos largos. Entro
na casa batendo os portões e quase tropeço em Adriana, que folhava o jornal do
dia. Tiro minha blusa parcialmente molhada e penduro-a na cadeira, subo até a
cozinha.
- Bom dia tia Lina.
- Bom dia, veio mais cedo, pra não
perder o almoço.
- É que vim correndo. Risos.
Pego um copo de café e desço. Acendo
um cigarro e começo a folhar o jornal. Em uma das matérias contara que o dia de
amanha fará quarenta anos do assassinato de Martin Luther King, Americano e
negro. “King imaginava um futuro em que os ‘brancos e negros, judeus e gentios,
protestantes e católicos,’ descendentes de escravos e de donos de escravos,
todos viveriam em harmonia, sentados a mesa da irmandade’. Nesse futuro, cada um seria julgado por seus
atos e por seu caráter, não pela cor de sua pele, pela herança de sua etnia, ou
por sua fé. King pedia ao mundo moderno que se mostrassem a altura de suas
próprias declarações fundadoras.” Ao longo das ultimas quatro décadas, muitas
coisas mudaram, o preconceito e a discriminação das diferenças retrocederam.
Foi o efeito de mil lutas, grandes e pequenas, nos parlamento, nas ruas e nas
padarias de esquinas. Parecemos nos encaminhar para um mundo, em que cada
individuo e cada grupo seria igual perante a lei e respeitados suas diferenças.
Lendo esse texto, penso em me
localizar quais relações vivo nos lugares onde freqüento. Que lugares são
esses? Onde estou? Quem somos nós? Quais idéias e ideais das pessoas com quem
convivo? Faz sentido resgatar pensamentos dos que já passaram por esses mesmos
sentimentos ao qual me encontro? Às vezes penso em estar em um lugar distante,
onde o pensar se dilui em palavras, transformados em versos, constrói e
desconstrói qualquer utopia. Adriana me chama.
- Você trouxe a câmera? Respondo:
- A câmera. Emprestei para um amigo.
- Pra que querias?
- Pra filmar o resultado do
acontecido ontem na favela.
Fala que quando estava vindo para o
projeto hoje pela manha, viu um aglomerado de pessoas em um beco perto de sua
casa. Foi até o aglomerado, e viu alguns corpos sendo tirados arrastados do
chão “ noite passada, os policiais estouraram um cativeiro, onde se encontrava
um seqüestrado. Os bandidos reagindo a ação da polícia, atiraram. Ouve uma
troca de tiros, de policiais e bandidos, tendo o resultado de três policiais e
dois bandidos mortos”. Quando terminou de falar sua fisionomia estava tensa,
pesada, pois sabia que naqueles dias seguintes, mais violência estava para
acontecer.
Subo para o almoço. Tia Lina fala que
amanha é o dia dela ficar com a neta. Estava assustada, com medo, pois já sabia
do acontecido na favela, da ‘ira’ que os policiais estavam devido a morte dos
companheiros.
Adriana chama tia Lina, “ sua neta
quer falar com você no telefone”. Tia Lina vai atender. Na volta, fala que a
mãe da neta, Gisela, vem trazer a neta até o projeto. Tia Lina senta em uma
cadeira, um pouco aliviada, estufa o peito e da um suspiro profundo, e fica em
silencio por alguns minutos.
Após o ocorrido, agora mais
tranqüila, fala “quando acontece esse tipo de coisa na favela, a policia fica
mais violenta.”
Desço, e peco o isqueiro emprestado
para André. Acendo um cigarro e André me pergunta como foi o dia de ontem, já
que não viera devido a ida ao hospital para levar seu filho, por causa da
gripe. Falo que vieram alguns adolescente, e a futura ou não coordenadora.
Cabelos pretos, pele branca, sorridente, demonstrava um interesse em conhecer o
trabalho. Rosa a acompanhava mostrando-a os espaços da casa e falando sobre o
trabalho....
Segunda feira, 07 de abril
Na ultima sexta, discutimos e
programamos as atividades realizadas na casa no decorrer da semana. Combinamos
então, que nessa segunda feira, haveria um grupo de discussão, onde as
educadoras, Adriana e Vanessa, discutiria com o grupo, relações de gênero. E os
demais monitores, Marco, Gilson, Anderson e eu ficaríamos na casa dando apoio
as atividades para os que não participassem, e também encaminhar os jovens que
chegam atrasados, para as atividades e atendimento corriqueiros do projeto.
Chego na casa por volta das 12hrs,
entro e comprimento os jovens que conversavam no corredor da entrada, Graciele,
Israel, Karina, Nadson, Emersom, Richard e Tiago, e os educadores Marco e
Vanessa.
A atividade do grupo de Gênero, não acontece,
devido a ausência justificada de Adriana. O jovem Alison e Lucas, pergunta qual
é a atividade de hoje. Queriam dar continuidade nas pastas, as quais já vinham
a algumas semanas produzindo-as. Então subimos para a sala de pintura. Os
jovens não sabiam o que desenhar. Pequei alguns livros de histórias infantis,
os quais se encontrava na prateleira, e entreguei-os um para cada, para assim, inspirar
alguma idéia. Tinta, pincel, folha e criatividade, aos poucos foram surgindo os
primeiros traços, que interligando uns aos outros, formavam cidades, robôs,
bonecos os quais começavam a se dialogar e a construir um grande mosaico.
Sempre após a atividade, os desenhos são colados nas paredes, gerando outras
histórias, no dialogo com outros desenhos realizados em outros dias.
É final de tarde, então, fica na casa
eu e Marco. O restante dos monitores vão embora. O telefone toca. Vou atender. Nesse tempo
Marco sai. Atendo o telefone, é a cobrar...Raoni (monitor) pergunta se Anderson
está na casa, falo que não. Pergunta por Vinicius, falo que não. Pergunta quem
está, falo que eu e os jovens, em atividade. Ele não acredita, fica inconformado de
uma equipe de dez pessoas, esteja apenas um, na casa. Marco acaba de chegar,
falo que agora esta eu e o Marco, que me pergunta cadê as pessoas...desligo o
telefone. Penso na ultima reunião, quando discutíamos com exaltação, as
atividades da semana, parecia que depois da reunião, as coisas iriam mudar. As
atividades aconteceriam, a casa sempre cheia, os jovens discutindo, produzindo.
O lanche após as atividades, a sujeira após o lanche. As conversas, com a
equipe no final de cada dia, com impressões sobre o dia. A briga de quem ia
ficar com a chave. Dias turbulentos...
08 de abril
terça-feira, dia de atendimento
jurídico. Entro na casa e me deparo com a mãe da jovem Graciele:
- Oi, tia. Tudo bem com a senhora?
- Tudo bem. E você filho?
- Tirando a gripe, tudo bem.
Entro na sala de atendimento, onde
Gabriel (advogado) conversa com o jovem Nadson. Comprimento os dois, e deixo
minha mochila no armário. Subo para a cozinha.
- Oi tia Lina. Cheguei cedo pro
almoço hoje?
Tia Lina me direciona um sorriso, e
fala:
- Marcelo, será que poderia fazer um
favor pra mim?
- Sim tia, pode falar:
- Você poderia ir até a prefeitura,
fazer o pedido para voltar a entrega dos lanches dos meninos. Cheguei hoje de
manha e tinha uns cinco adolescentes na casa, e não tinha nada pra eles comer.
Eu não posso ficar todo dia, gastando meu dinheirinho, pra comprar lanche pra
eles. Você não pode fazer esse favor pra mim filho?
- Sim tia, eu posso ir. Mas preciso
das ‘papeladas’ para levar, se não, não adianta.
Termino o almoço e desço. A casa não
para de chegar adolescentes. Ângela, Graziela e Kell sobem pro almoço.
Vou em direção ao bebedouro, no
caminho, o jovem Jonas, pede uma folha de sulfite, para terminar os desenhos de
ontem. Falo para ele subir e ir arrumando a sala, que vou pegar as folhas e as
tintas. Chego na sala e encontro Jonas varrendo a sala, coloco as tintas em
cima da mesa e pego os pincéis do armário, para lavá-los.
Jonas fala que não sabe o que
desenhar. Falo que também não sei. Alguns segundo se passam. As idéias começam
a aflorar, então, as primeiras asas de um pássaro ‘sai.’ Em uma região
montanhosa começa a voar. Jonas vê e começa a desenhar árvores, flores, nuvens.
Nossos desenhos começam a se comunicar. O silencio ocupa o espaço, se esvai com
a chegada de mais cinco adolescentes, Diego, Diogo, Careca, Tiago e Levy.
Chegam ‘causando’, perguntando das pastas. Vou buscá-las. Na volta, encontro
alguns pintando e Tiago lendo uma história. O livro conta a história do Menino Invisível. Entro na sala em silencio. A leitura
continua:
Era uma vez, um menino comum
Tão comum, mas tão comum, que ninguém
reparava nele. Invisível?
Não era feio, nem bonito.
Nem grande, nem pequeno. Inteligente?
Nem tanto. Mas também não era burro.
As vezes manhoso. E sempre triste.
Ficava sempre sozinho.
Sem ninguém reparar nele
De vez em quando ficava esperando um
milagre,
Tipo patinho feio virar cisne e ai...
Aí todo mundo ai reparar nele e
gostar dele.
Não ia ser somente um menininho
perdido no meio da multidão.
O menino foi ficando cada vez mais
triste...
Triste...
E acabou vendo que não era de milagre
que precisava. Nem psicóloga.
Precisava era acabar com a tristeza.
Descobriu que era a tristeza que o
fazia ‘invisivel.’
E aprendeu a sorrir.
Era uma vez um menino comum, nem
grande, nem pequeno, nem inteligente, nem burro
Carinhoso e monhoso, que se
chamava...
Os desenhos começam a ganhar cores.
Tiago após ler a história coloca o livro em cima da mesa, Jonas vê a contra
capa e fala que tem mais histórias, e le:
Sem abrir os olhos,
Sem olhar o mundo,
Sem notar os outros,
Sem sorrir,
Sem se mostrar
a gente fica impossível
qualquer um fica invisível.
09 de abril
O dia de hoje, escrito com a
câmera...
então lembro da frase...
O tempo não pode desaparecer sem deixar vestígios, pois é uma categoria
espiritual e subjetiva e o tempo por nós vivido fixa-se em nossa alma como uma
experiência no interior do tempo
Esculpir o tempo - Tarkovski
Sem data
Chego e me assusto com o Gilson
(psicólogo) agachado em frente a porta da entrada principal do projeto.
- E ae Gilson, tudo bem?
- Tudo, to descansando, acabei de
almoçar.
Entro guardo minha mochila, e subo
para cozinha.
Após alguns meses sem freqüentar o
projeto, devido a internação em uma clinica, por abuso de drogas, Tiago almoça
com Adriana, sua esposa. Tia Lina
prepara o suco. Pego um prato e sirvo arroz, feijão e carne moída com
legumes. Logo chega as adolescentes, Priscila, Rayane e Pamela, inquietas de fome.
Tia Lina serve as meninas. Pamela diz que não gosta de legumes e tia Lina diz
que legumes tem energia e quando misturado com a carne sustenta mais.
Pergunto para Priscila se ela sabe
cozinhar. Fala que sim, Rayane fala que não sabe fazer nada de comida. Pergunto
se já tentou fazer, diz que não. Falo do miojo que faço não tem pra ninguém.
Rayane me olha espantada e sorri.
Terminado o almoço, lavo o prato,
pego um café, e desço.
Fuçando no armário, encontro o poema,
O operário
em construção, de Vinícius de
Moraes, o qual não o lia a alguns anos, lembro-me da primeira vez que o ouvi,
quando meu tio Chico recitava:
“(...)
Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia-
Exercer a profissão-
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.
E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
De edifício em construção
Que sempre dizia sim,
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar as coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.
(...)”
Um grito, tia Lina quer falar comigo,
pego o poema e subo para cozinha.
- Oi filho, será que você pode ficar
aqui na cozinha, pra eu ir buscar minha neta na escolinha. Hoje a Gisela, mãe
dela, foi em uma entrevista de emprego.
- Sim tia, só um segundo que vou
buscar minha mochila.
Quando volto pra cozinha, Kell e
Paloma terminam de almoçar. Pergunto por tia Lina. Já se foi. Pego uma caneca,
coloco água e acendo o fogão. Kel pergunta o que vou fazer. Respondo:
-Café. Toma café?
Enquanto a água ferve, desço pegar
uma caneta. No caminho encontro com Gilson. Pergunto se ele vai visitar os
adolescentes que estão internado na clinica de recuperação. Fala que vai ligar
na clínica para confirmar. Então falo:
- Se forem na clinica levem a câmera,
para Cauene (adolescente) terminar as gravações que começamos a fazer da ultima
vez que fomos.
Gilson não entende, então subo com
ele até a cozinha, e mostro as gravações que tínhamos feito na ultima vez que
fomos. E conto como foi.
Saímos em uma manha de domingo. Chego
na casa de Cauene por volta das 8hrs. Sua mãe atende, e fala que Cauene esta
dormindo. Fala para eu entrar que iria acordá-lo. Entro e espero na sala.
Caíque seu irmão, chega da padaria com uns pãezinhos fresquinhos. Não tinha
comido nada, no momento em que olho para os pães, meu estomago grita. O cheiro
do café exala na sala. Passa alguns minutos, e sua mãe me convida para o café.
Durante o café, conto a história para mãe de Cauene e seus dois irmãos que
estavam na mesa.
Depois de Cauene ter comentados a
alguns dias atrás, da clinica de recuperação, a qual estava internado, por
cinco meses. Contou que fez muitas amizade, uma delas foi com Fabinho,
adolescente da mesma idade da dele, e na mesma situação a qual se encontra, só
que com um diferencial, Fabinho era compositor e cantor, o que despertou em
Cauene um grande interesse. Na amizade entre os dois, segundo Cauene, foi muito
forte. Diz que chegaram a compor algumas músicas.
Após a saída da clínica, percebi uma
grande mudança em sua vida, a de ter a chance de contar sua história de sua
vida, através da música, e com isso permitir que algo de diferente aconteça.
Nos meses que passou na clínica, Cauene conheceu pessoas novas, com estilos e
idéias de vida diferentes das quais está acostumado a conhecer. Por a clínica
ser um ambiente fechado para quem esta disposto a uma ajuda, ela proporciona um
convívio intenso com as pessoas que lá estão, no sentido de união, de
sociabilidade. O que proporcionou que Cauene observasse mais as pessoas, suas
histórias de vida, seus pensamentos, a maneira como os amigos se comportam um
com o outro.
Após a conversa, o café acaba, Caíque pergunta
se eu quero mais. Cauene sai do banho, e fala da ultima vez que foi na clínica
de trem:
“tava no trem, os caras dentro do
trem filmando os trilhos. Eu tava só no canto com minha mala e os malucos
gravando, aí os guardinhas passaram, e esconderam a câmera e depois dinovo.”
Enquanto Cauene fala, vem em minha
mente, um dos primeiros vídeos que realizei, Filhos do Trem, o corre-corre dos ambulantes vendendo dentro dos
trens de São Paulo, sempre em fuga dos guardinhas. Falei que já tinha passado
por aquelas situações e que seria uma cena para o vídeo que iríamos fazer.
Na ida para a clínica, procuramos ir
gravando situações, as quais usaríamos no vídeo. Uma delas é quando partíamos,
quando Cauene fala:
“nós tamo indo pra casa dia, de
apoio. Para gravar o rap gospel que nóis vai cantar. Nós vamos pegar o trem no
Tamanduateí, e depois pegar um ônibus. Tamo tentando gravar um DVD, Fabinho e eu.
Quando chegar lá, mando um salve pra rapaziada.”
Junho
Chego 15 minutos atrasado. Entre o
portão principal e a porta, se encontra as jovens Adriana e Aline. Quando me
vêem, olham assustadas. Adriana fala:
- Por que de tanta pressa?
Entro na sala, abro o armário e
guardo minha mochila. Saio da sala me deparo com Anderson, Raoni, André
(monitores).
Vinha pensando durante o caminho até
o projeto, o que iríamos fazer de atividade com os adolescentes. Lembrei então,
da reforma que estava acontecendo no projeto, com a construção a qual aos
poucos ia se concretizando. No começo da semana ganhamos uma doação de livros,
os quais aos poucos iam sendo catalogados. Na semana passada Julia (psicóloga)
e Dedão (jovem), começaram a catalogar, pensei em hoje reunir alguns
adolescentes para ajudar, também para ter uma proximidade com os livros.
Saio da cozinha e encontro com Lucia,
a mesma que está organizando a reforma e a construção da biblioteca. Lucia,
ativista de movimentos sociais, trabalha como voluntária no projeto. Foi ela
quem ajudou nas doações dos livros, falou que o lugar onde mora, quando precisa
de algo, a vizinhança responde, contribuindo com materiais para reforma, no
caso, e as doações dos livros.
Volto para cozinha, e encontro com
tia Lina encostada na janela. Vou em direção a ela com os braços abertos e com
um enorme sorriso. Tia Lina me olha, da dois passos para frente, abre os braços
e me abraça. Falo a ela:
- Feliz dia das mães, para nossa
mãezona,
- Obrigado, filho.
Me solto dela, mas eufórico por
aquele momento, volto a abraça – lá. E falo:
- E aí tia, como foi o final de
semana. Fala que foi bem, ontem almoçou com Odair, seu filho, e sua neta de
três anos. Estava contente, arrumou uma vaga na escolinha pública, para sua
neta, não agüentava mais pagar quatrocentos reais de mensalidade onde
estudava.
Se assim fosse
Diários do passado/presente se entrecruzam. des-construindo, transformam-se em novas história dentro do labirinto das histórias. Poesias de encanto e desencanto. Oh vida. pensamentos, batalhas, momentos de dor, marcas. De algum tempo pra cá, venho travando um conflito entre a escrita e a imagem, ou talvez entre as ciências e as artes. Ao criar uma imagem, o tempo nos para, para outro (re)começo, um futuro/passado nos guia o acaso presente, com suas vozes e gestos expressos; gritos e corpos dilacerados; num quotidiano cada vez mais intenso e veloz, como se cria novas percepções de entendimento e diálogo com o outro em suas diferentes/semelhantes realidades de habitar, conhecer e trocar experiência de vida? Tempo aniquilador. refém da eternidade, prisioneira dos acasos. Diferentes sensações se passam com a escrita, pois muitas das vezes o momento sentido passou, e quando precisamos passar a idéia adiante, pode não existir mais esse tempo, e o pensar se esvai. Relembrando o instante marcado, um resgate de sensações retorna, mas não com a mesma forma. Abandonado pelos próprios pensamentos. Nossas fontes criativas, autônomas, aptas a criar novas sensações, modos de agir, pensar, experimentar, intensificando e explorando novas possibilidades para quem se aventura nesses desacasos.
Se assim fosse
Diários do passado/presente se entrecruzam. des-construindo, transformam-se em novas história dentro do labirinto das histórias. Poesias de encanto e desencanto. Oh vida. pensamentos, batalhas, momentos de dor, marcas. De algum tempo pra cá, venho travando um conflito entre a escrita e a imagem, ou talvez entre as ciências e as artes. Ao criar uma imagem, o tempo nos para, para outro (re)começo, um futuro/passado nos guia o acaso presente, com suas vozes e gestos expressos; gritos e corpos dilacerados; num quotidiano cada vez mais intenso e veloz, como se cria novas percepções de entendimento e diálogo com o outro em suas diferentes/semelhantes realidades de habitar, conhecer e trocar experiência de vida? Tempo aniquilador. refém da eternidade, prisioneira dos acasos. Diferentes sensações se passam com a escrita, pois muitas das vezes o momento sentido passou, e quando precisamos passar a idéia adiante, pode não existir mais esse tempo, e o pensar se esvai. Relembrando o instante marcado, um resgate de sensações retorna, mas não com a mesma forma. Abandonado pelos próprios pensamentos. Nossas fontes criativas, autônomas, aptas a criar novas sensações, modos de agir, pensar, experimentar, intensificando e explorando novas possibilidades para quem se aventura nesses desacasos.
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